viernes, 11 de diciembre de 2015

ANÁLISE DOS PADRÕES DE MOVIMENTO FUNDAMENTAIS DOS INDIVÍDUOS

Apesar de já ser utilizado em áreas como a ortopedia ou a fisioterapia, a avaliação funcional é um conceito que vem a ganhar importância no mundo do exercício e saúde. Consiste na análise dos padrões de movimento fundamentais dos indivíduos para identificar movimentos que possam ser considerados disfuncionais e que representem risco de lesão não traumática ou obstáculo à performance desportiva ideal. Trata-se, na prática, da avaliação da qualidade de movimento dos indivíduos através da aplicação de testes ou baterias.

Para entender melhor este conceito, é necessário primeiro ter uma visão ligeiramente diferente da habitual em relação ao funcionamento mecânico da máquina complexa que é o corpo humano. Na visão convencional, o movimento é normalmente avaliado e trabalhado de forma segmentada, ou seja, por grupo muscular. Esta visão pode ser considerada redutora, visto que, para qualquer tarefa física, é necessária a contribuição preponderante do sistema nervoso e vascular e que todos os segmentos corporais e respectivos músculos funcionem em conjunto de forma integrada para garantir o objectivo final, seja ele correr, saltar, puxar ou empurrar um volume. Limitações no funcionamento normal de qualquer sistema, estrutura ou segmento vão influenciar negativamente outros sistemas, estruturas ou segmentos. Focando apenas na nossa área de estudo, o movimento humano, isto significa que limitações na mobilidade ou estabilidade de uma qualquer articulação ou conjunto de segmentos vão impor a necessidade de compensação pelas articulações ou conjuntos de segmentos adjacentes de forma a que o objectivo final seja igualmente cumprido. Por exemplo, ao executar um agachamento, se existir uma limitação na flexão do tornozelo, o movimento será executado à custa de uma flexão excessiva na anca e coluna lombar. Outro exemplo comum são as limitações ou bloqueios em flexão da coluna dorsal, que causam necessidade de compensação pela coluna cervical, cuja musculatura adjacente terá de garantir a sua hiperextensão de forma a articular convenientemente os movimentos da cabeça e pescoço. Estas compensações sobrecarregam certas estruturas musculares ou articulares e podem, em última instância, culminar em lesão do tecido.

Lesão (normalmente caracterizada pela presença de dor) e disfunção, estão intimamente ligadas. Frequentemente uma precede o aparecimento da outra. Comecemos pela dor: esta é um sinal de que alguma estrutura do corpo está lesada ou em risco de ficar e o seu aparecimento altera o nosso comportamento de formas inconsistentes, imprevisíveis e normalmente automáticas (quando sofremos uma entorse no pé, por exemplo, ninguém tem de nos ensinar a manquejar). Na presença de dor, existe normalmente uma alteração dos padrões motores para evitar a sua reprodução e proteger o sistema. Essa alteração da função normal, uma disfunção, poderá por sua vez desencadear o mecanismo de lesão de sobrecarga noutros  tecidos. Por outro lado, movimentos repetitivos diários, maus hábitos de treino e posturas incorretas prolongadas, levam ao aparecimento de disfunções no nosso sistema de movimento, que, como já vimos, podem desencadear o aparecimento da lesão de sobrecarga, dor e subsequentemente mais disfunção. 
O problema da visão convencional do movimento aplica-se também à recuperação de lesões, onde normalmente a recuperação fisiológica dos tecidos é o foco exclusivo da equipa clínica e as alterações motoras resultantes de um período alargado da execução de padrões motores disfuncionais ficam relegadas para segundo plano.
A proposta para começar a intervir neste problema, de uma forma mais assertiva e objectiva, é a aplicação de uma bateria de avaliação funcional, que permita filtrar os principais padrões de movimento, categorizando-os. Desta forma, conseguimos mais facilmente identificar as limitações que possam estar a causar um problema ou que o possam vir a causar. Com esta informação, podemos aplicar uma estratégia realmente direcionada à sua resolução. As baterias de avaliação funcional e os testes que as compõem estão longe de poderem ser classificados como verdadeiramente preditivos de futuros problemas, mas neste momento, são um óptimo ponto de partida para começarmos a entender melhor o funcionamento do nosso sistema locomotor e sermos menos arbitrários na nossa prescrição de exercícios corretivos.

Existem já várias baterias de testes compostas por vários autores como o FunctionalMovementScreen (FMS) (Cook, 2010) ou os Magnificent 7 (Liebenson, 2014), mas mais importante do que a utilização e aplicação destes instrumentos, é perceber os seus princípios e a sua lógica. O objectivo de qualquer bateria de avaliação funcional deve sempre ser a procura por movimentos dolorosos ou alterações e limitações nos padrões de movimento que possam representar um risco de lesão para o indivíduo. 

Não nos devemos focar apenas em zonas especificas, principalmente em indivíduos queixosos, visto que a disfunção pode ter origem numa área silenciosa do corpo. As baterias devem servir como um filtro que possa avaliar sempre o corpo como um todo e, caso haja essa necessidade, especificar em certos movimentos ou articulações. A avaliação funcional de um atleta profissional de lançamento do dardo, por exemplo, não deverá ser a mesma da de um idoso que apenas quer levar um estilo de vida saudável. O atleta requer uma avaliação mais minuciosa da estabilidade e graus de liberdade das várias articulações do ombro enquanto que uma avaliação do idoso deverá ser mais focada na sua capacidade de locomoção e equilíbrio do membro inferior. Não existem baterias nem testes ideais que filtrem todos os problemas e nos digam logo qual a sua solução, mas a utilização destes instrumentos já existentes é um excelente ponto de partida. No entanto, a sua aplicação deve estar sempre aliada a uma contínua busca para os aperfeiçoar e melhorar a nossa própria prática nesta área.

A literatura científica que procura validar a avaliação funcional como instrumento preditivo de futuras lesões, apesar de estar ainda numa fase gestacional e de ter quase só como objecto de estudo o FMS (a bateria mais utilizada de momento), já nos fornece informação suficiente para aceitarmos o seu valor (Kieseletal., 2007; Chorbaetal., 2010; O'Connor etal., 2011; Lehretal., 2014; Bodden et al., 2015). Cabe-nos a todos, profissionais na área do exercício e saúde, continuar a pesquisa neste sentido e os ginásios são verdadeiros laboratórios vivos que podem servir para este efeito.

André Sousa

 
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